Andança

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“Apesar de conhecer a jornada toda e o seu final, eu aceito. E acolho todos os momentos dela.”

Se conseguisse ver sua vida toda, do começo ao fim, você mudaria alguma coisa?

Essa frase é do filme chamado “A Chegada”, onde a protagonista, mesmo sabendo dos percalços que enfrentaria, resolve abraçar o seu futuro.

E foi assim com você, minha filha.

REBOBINA, REBOBINA,REBOBINA. VAMOS COMEÇAR DO COMEÇO.

Você nasceu com artrogripose, você andou com 1 ano e 9 meses, depois de muitos tratamentos. Nós duas ali, pegando o ônibus que nos levava ao Sarah, nós duas naquele sacolejo, naquela confusão de crianças em coletivos lotados, em horários malucos. Foram muitas sessões de hidroterapia, muitas conversas com as fisioterapeutas, muitas teorias, mas quase nenhuma certeza.

Muitas amizades com mães que passavam pela mesma peleja.

Muitas oportunidades para que eu enxergasse a sorte que temos,filha! Via mães levando seus filhos cadeirantes em dias de chuva, sozinhas. Vinham de lugares distantes, saiam de casa cedinho, quase madrugada. Algumas vezes, elas vinham de outras cidades, e iam com um sorriso no rosto, uma esperança indelével.

Nestes momentos eu via que tínhamos sorte, afinal só pegávamos um ônibus (que atravessava a cidade, mas era somente um ônibus), e conseguia horários relativamente bons. E você era leve, e eu não precisava carregar uma cadeira de rodas ( se precisasse, carregaria mil).

E assim, naquela quinta-feira santa de 2016, você deu seus primeiros passos. Foi na sala de casa, aquele apartamento muquifo da rua da Bahia, bem no baixo centro de BH, onde morávamos eu, você, seu pai e algumas baratinhas francesas, ui ui.

Filha, a partir daquele momento eu me proibi de pedir qualquer coisa. Eu já tinha aquilo que queria. Eu tinha você, seu pai e tinha o seu caminhar.

Serena, escutei uma coisa hoje e acho que serve para nós duas: “O chegar não é mais valioso que a andança”. Sim, filha, o resultado final, o seu andar, a sua marcha não são mais preciosos que o caminho que percorremos para alcança-lo.

Obrigada por me fazer perceber o valor do caminho.

A respeito da pergunta que inicia o texto: Sim, eu aceito. Sim, eu acolho todos os momentos dela.