Pedra preciosa.

Posted by in casos, Desabafo

Há uma lenda, dessas cheias de lições de moral, que fala sobre um homem que ficava carregando um saco de pedras e reclamando da vida. Que a vida dele era foda, pesada, ficar carregando aquele saco cheio de pedras, credo! Deve ser foda mesmo.

Sei que uma parte do conto fala o seguinte: Assim são as pessoas: jogam fora seus preciosos tesouros por estarem esperando o que acreditam ser perfeito ou sonhando e desejando o que não têm, sem valorizar o que tem perto delas.

Pois bem, como alguns sabem eu já morei em Barcelona por uns 3 anos.

Antes de me mudar para lá, eu ODIAVA Belo Horizonte. Achava a pior cidade do mundo. E calhou de que eu terminara a faculdade, já havia tirado minha OAB, e estava apaixonada por um cara ( que hoje é marido) que estava indo viver em Barcelona, para seguir o sonho DELE.

Dai que eu fui, fui viver o sonho de uma pessoa, numa cidade que é sonho de muitas outras.

Barcelona de Gaudí, aquela cidade LINDA, um deslumbre realmente.

Mas posso falar? Sendo turista, não tendo horário, preocupações cotidianas, contas para pagar, horário para trabalhar…até a cidade mais feia pode ser maravilhosa.

A vida de quem vive no local ( não falo de estudantes do Erasmus e Ciências sem Fronteiras, plmdds, tô falando de vida de gente grande) é bem diferente. Trabalhar, pagar contas, dividir apartamento é OUTRA história.

Eu sou advogada, portanto, seria difícil encontrar um trabalho na minha área no exterior, o que me levou a trabalhar em lojas, sim trabalhei em duas lojas, uma de sandálias feitas à mão, e outra de joias artesanais (Experiência enriquecedora! Conheci gente, pratiquei inglês demais!).

Enquanto todo mundo estava visitando os lindos parques, as lindas praias, tomando deliciosos vinhos e cavas pelos mercados, eu estava trabalhando. E trabalhava DURO, dia útil, finais de semanas, feriados, às vezes 10 dias sem descanso. E ganhava por hora, ganhava uns 6 euros por hora.

Camila, vamos passear? Vamos viajar para Alemanha? É do lado, tem passagem low cost! Viajar pela Europa é tãooo barato! Realmente, barato é… mas lembra que te falei que meu salario era por hora? E eu precisava trabalhar, assim como meu marido também trabalhava quase todos os dias da semana. Não é tão fácil na prática, verdade?

Eu morava numa zona não turística, se avistasse algum turista, poderia saber que perdeu o ponto para o Camp Nou, rsrsrs minha casa ficava perto. Então não era aquele glamour do Almodóvar, eu não morava no centro de Barcelona, e não passava meus dias contemplando a Sagrada Família. Alias, ninguém que mora lá passa o dia de pernas pro ar, né?

Outro fator importante, eu VIVI a vida no Brasil. Eu lia jornais daqui, eu vivia muito mais o Brasil do que o recomendado, quando na verdade, eu deveria ter me integrado à cultura local. Eu via meus colegas progredindo em suas carreiras, e isso me deixava mal.

Somando aos longos invernos, depressão, perda de familiares queridos (Sim, pessoas morrem enquanto você está longe, seus pais envelhecem e você tem que trabalhar a ideia de não vê-los novamente)…acho que Barcelona se tornou cinza para mim.

Não nego que vivi coisas que nenhum turista viverá em seu tour em cima de um ônibus vermelho. Eu saia do trabalho e me perdia pelo Gótico, e fumava meu cigarro (ssds, cigarro) olhando um prédio do Gaudí. Aliás, turista vê a cidade, turista não conhece nada.

Eu dividi apartamento com gente da Romenia, Tunisia, Japão, Venezuela. Estudei com gente do Caribe, convivi com paquistaneses, com catalães do interior da Catalunya. (Abriu minha cabeça. Sou uma pessoa muito aberta por causa disso)

Eu dei valor aos 6 euros que ganhava por hora, eu percebi que um batom da MAC significava 3 horas de trabalho, eu valorizei o sol tropical. Eu valorizei o afeto dos amigos recém-feitos. Eu chorei e eu ri tudo que eu poderia chorar na vida.

E isso me impactou!

Dai não deu mais, e voltamos para o Brasil. Aqui formamos um lar, meu marido fez faculdade, trabalha no que sempre gostou, tivemos uma filha, e a vida segue.

Hoje eu valorizo minha cidade. Belo Horizonte é feia!Mas meu olhar a torna bela. Eu passei a prestar atenção nos detalhes, coisa que a gente não faz quando está de carro o tempo todo. Eu aprendi a me perder na minha própria cidade.

Por que você está escrevendo isso tudo, Camis? Porque vejo uma romantização da vida no exterior, com a crise, vejo muita gente querendo sair do Brasil sem ter um plano concreto. E quero dizer que não é tão fácil. Quando você carrega um saco de pedregulho, não há país que torne o fardo mais leve.

PS.:Conheço MUITA gente que se adapta á vida lá fora, só falei da MINHA experiência.

PS2: Fui em 2008, voltei em 2011. Eu trabalhei legalizada, eu tinha documentos que me permitiam trabalhar.