Um mea culpa

Posted by in Desabafo

“Eu cresci frequentando a casa das patroas da minha mãe, achando sensacional poder tomar água de coco de caixinha, que me ofereciam de uma grande geladeira branca e recheada de guloseimas. Achando sensacional o presente de dia das crianças que uma delas nos dava no dia 12 de outubro, porque minha mãe, com o salário que recebia, não poderia comprar. “

E foi este parágrafo, retirado deste texto aqui ( leiam, leiam, por favor, leiam), que me tirou o sono literalmente. Foram estas palavras que ficaram latejando na minha cabeça durante essa noite. Remorso, culpa, vontade de ter o conhecimento que tenho hoje, mas há alguns anos atrás. Vontade que aquela Camila, descolada de outras épocas, tivesse mais percepção dos próprios privilégios.

Sim, PRIVILÉGIOS! Pois ao contrário do que a nossa querida classe média acha, privilégio não é ser um Setúbal, ou um Hilton da vida. Como disse Stéphanie Ribeiro: “TEM ÁGUA NA TORNEIRA É PRIVILÉGIADO DE ALGUMA FORMA!”

Eu tenho total consciência que nunca me faltou nada. Fiz estágio durante a faculdade, mas a bolsa servia para meus gastos pessoais, nunca precisei trabalhar para pagar estudos, sempre morei em bairros bons, sempre tive plano de saúde, sempre dormi baixo um teto seguro, tive acesso à cultura, etc etc. Se isso não é ser privilegiado, eu não sei o que é.

E por que falo disso? Pois tal qual o espírito de Prudencio Aguilar, em Cem anos de Solidão, a imagem de uma menininha que frequentou a casa dos meus pais por alguns anos, veio me assombrar esta noite.

Na casa dos meus pais sempre teve uma senhora que passava as roupas, e essa senhora tinha uma netinha. Chegou um momento que essa garotinha passou a acompanhar a avó, como várias outras crianças que acompanham suas mães/avós na casa dos patrões.

Eu nunca dei muita bola para a menininha, afinal, uns 25 anos de idade nos separavam. (Não que isso seja desculpa)

Mas ontem a noite eu me peguei pensando: Por que eu nunca a convidei para assistir a tv enquanto a avó terminava seus afazeres? Por que eu nunca separei uns minutinhos para conversar com ela? Por que eu fui tao egoísta? Por que eu não vi a opressão que estava debaixo dos meus olhos?

Porque eu, como milhares de pessoas, não enxergamos nossos privilégios, e achamos que as coisas “sempre foram assim”.

Só que agora eu não posso me desculpar com a menina, sabe porque? Porque ela morreu. Ela agora é só um nome cravado numa cruz em um cemitério popular. Como milhares de outras crianças que morrem no mundo por falta de cuidados.

Quisera eu ter tido acesso às informações que tenho hoje, quisera eu ter desconstruído certas ideias no momento oportuno.

Mas o tempo não volta, e o que eu posso fazer agora, é tentar me informar mais, tentar pensar fora dessa caixinha classe média sofrida, que acha que pagar impostos lhes confere algum titulo de idoneidade moral irrefutável.

Cabe a mim assumir essa mea culpa e tentar acertar no futuro.

ps.: A menininha faleceu há uns 2 anos, mas só ontem eu me peguei pensando nela. 🙁

ps2: Prudencio Aguilar é um personagem de Cem anos de Solidão que, depois de morto, vinha conversar com José Arcadio Buendía.